quarta-feira, 9 de março de 2011

A onda vermelha do norte

Vindos da Escandinávia meridional, da costa da Alemanha e dos Países Baixos, os povos bárbaros se uniram para expulsar os romanos da Bretanha


Elmo do período migratório viking, do século V, feito
de ferro e bronze. Museu Histórico de Estocolmo.

Jordanes, historiador godo, nos diz que “é da Ilha de Scanzia, que podemos chamar de fábrica de nações ou reservatório de povos, que os godos parecem ter saído (...)”. Essa Scanzia, a atual Escandinávia, era povoada por um grande número de nações. A maioria dos grupos, que participaram das migrações, era proveniente da Escandinávia meridional, outros da costa da Alemanha e dos Países Baixos. Suas tradições marítimas faziam com que estivessem em permanente contato e que começassem a investir juntos sobre a Bretanha, no final do século III, destruindo a autoridade de Roma na ilha.

Nesse “oceano germânico” que é o Báltico, emigrantes originários de povos inexoravelmente confundidos, começaram a expandir-se, tanto na direção leste quanto oeste. É muito difícil distingui-los uns dos outros, pois só os mais importantes, ou os que foram mais felizes na guerra, deixaram o nome na posteridade. O velho fantasma da coesão étnica foi espantado pelos fatos. Nada serve para procurar a origem de um grupo determinado, pois todos provêm de agrupamentos posteriores às migrações.

Um clã escolheu seguir um chefe de prestígio, tido como invencível, sem se preocupar com o lugar de onde viera. Esse fenômeno foi reforçado no noroeste da Europa por uma semelhança de línguas, tanto que os lingüistas chamaram de velho saxão e velho inglês uma espécie de matriz comum a toda uma era geográfica que englobava aquela área. Desde finais do século III, tornou-se claro o perigo que os francos e os saxões representavam para a parte setentrional do Império Romano. O mar do Norte estava a ponto de se tornar “germânico”, ou seja, ali, a potência romana estava mais ou menos ausente.

Foi nesse contexto que em março de 286 a Gália e a Bretanha insular (atual Grã-Bretanha) reuniram-se num único setor militar, cujo comando foi confiado a um homem de armas de origem bárbara, Caráusio. No início, sua autoridade limitava-se ao litoral da Gália e à ilha da Bretanha, mas em razão de vitórias obtidas rapidamente a partir daquele ano, Caráusio se impôs de tal maneira que governou durante uma década esse que chamamos o primeiro Estado britânico-gaulês. De imediato, ele tentou aumentar suas possessões continentais, sem deixar a Gália do Norte. Comportava-se como um verdadeiro césar romano. Em 289, o imperador Diocleciano enviou um exército comandado por Maximiano para enfrentá-lo, mas foi vencido durante uma batalha naval.

Poder restabelecido

Caráusio não foi reconhecido por Diocleciano; para marcar sua autoridade ele multiplicou as operações militares, até ser assassinado. Certos de sua inferioridade nesse campo, a fim de evitar uma nova batalha naval, os romanos, sob o comando de Constâncio, desembarcaram perto da ilha de Wight e restabeleceram o poder de Roma na região.

Durante a primeira metade do século IV, a Bretanha insular, que havia se tornado novamente romana, conheceu segurança e prosperidade relativas. Prontamente voltaram a eclodir guerras intestinas, o que enfraqueceu bastante o exército romano. A partir de 354, o perigo delineava-se mais uma vez: os francos e os saxões de um lado, os pictos e os escotos de outro, assediavam as zonas de domínio romano. No continente, as incursões bárbaras ameaçavam a Gália do norte, interrompendo as rotas de abastecimento. Apesar dos decididos e corajosos esforços do imperador Juliano, que em pessoa liderou o combate em todas as frentes do norte do Império, a situação se degradou. Quando de sua morte, em 365, ocorreu uma nova invasão dos alamanos na Gália, e os ataques bárbaros recomeçaram na Bretanha.

Em 367, os saxões, que até então só tinham empreendido algumas ações isoladas, atacaram em conjunto e acrescentaram suas investidas às dos pictos e dos escotos, provocando um desastre total: o exército romano foi derrotado às portas de Londres. A conjunção de forças bárbaras, de interesses contraditórios entre si mas determinadas a expulsar os romanos da ilha, tinha se revelado eficaz. No entanto, pela última vez os romanos conseguiram restabelecer o controle da situação. Valentiniano I reuniu às pressas suas melhores tropas, que desembarcaram em Richborough e marcharam sobre Londres.

A Bretanha romana foi reconquistada, e as fronteiras restauradas e reforçadas. Parece que a ação de piratas saxões que ameaçavam cortar relações com o continente foi considerada mais perigosa do que as investidas dos pictos ao norte e as dos escotos na Irlanda. O dispositivo de defesa da costa foi repensado em razão da terrível derrota de 367. Mas como a ilha da Bretanha ficava na periferia do Império, assim que o perigo se delineou no continente, sua defesa foi novamente negligenciada; as melhores tropas retomaram o caminho da Itália. Na Gália, as usurpações sucederam-se, até que Estilicão, novo senhor do Ocidente, reforçou mais uma vez os dispositivos defensivos ao fazer uma inspeção, em 396. Foi nesse contexto de relativa paz recuperada que houve a grande invasão de 406, na Gália: os germânicos passaram pelo Reno na direção de Mogúncia e, como resume de modo lapidar o historiador Lucien Musset, “tudo desmoronou”. Isolada do continente, a ilha da Bretanha conheceu sucessivamente três invasores, em alguns meses. Bem informados, os saxões precipitaram-se rumo à Bretanha insular para ali permanecer e criar um novo reino. O historiador grego Zózimo escreveu a esse respeito: “Os bretões, em recusa à dominação romana, viviam a seu próprio modo, sem obedecer às leis romanas”. Eles devastaram o país. Nas raras fortalezas onde ainda havia resistência, os pedidos de ajuda multiplicaram-se, mas era muito tarde. O Império já não tinha meios de intervir.

Em 410, Honório, impotente, respondeu aos bretões que eles mesmos deviam enfrentar o perigo saxão. O Império Romano não renunciou formalmente à Bretanha, mas dali em diante sua influência sobre a ilha terminaria. Somente o sudeste resistiu durante algum tempo, mas como a rota marítima da região do Pas-de-Calais (no extremo norte da atual França) estava praticamente interrompida, o último bastião mergulhou no isolamento.

Alguns vestígios da organização política romana permaneceram entre os bretões em luta contra os saxões, como menciona a obra que descreve a vida de São Germano de Auxerre, que foi à ilha em 419. Por meio dela, ficamos sabendo que os saxões faziam incursões até as portas de Londres. Por ocasião de uma segunda visita dele, entre 440 e 444, a situação parecia ainda mais precária. Vários sintomas indicam que em meados do século V teria acontecido a derrocada da administração. Definitivamente, eram os últimos contatos dos bretãos com o continente. - Tradução de Marly N. Peres

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Reino de Genserico

Genserico foi rei dos vândalos e alanos entre 428 e 477. Durante os seus quase cinquenta anos de reinado elevou o seu reino à categoria de potência mediterrânea


Representação de Genserico saqueando Roma.


Antecedentes

Em outubro de 409 d.C., os vândalos cruzaram os Pirenéus penetrando na Península Ibérica. Lá eles receberam terras dos romanos, como foederati, na Galécia (a noroeste) os Hasdingos, e os Silingos na Bética (no sul), enquanto os Alanos receberam terras na Lusitânia (a oeste) e na região em torno de Nova Cartago.

Em 416, o rei Visigodo Valia prometeu ao Imperador Honório libertar Espanha dos demais bárbaros: derrotou os Silingos, cujo rei Fredbal foi capturado e levado para Itália, e os Alanos.

Os vândalos Hasdingos foram derrotados pelos suevos e romanos nos montes "nervasi" . Perseguidos pelos romanos, o rei Hasdingo Gunderico e o seu exército dirigem-se ao sul, obtendo o reforço dos restos da tribo dos Alanos, que foi dizimada em combate pelos Visigodos, dos quais os sobreviventes saudaram Gunderico como seu rei.

Atingindo as férteis planícies da Bética, Gunderico tornou-se rei dos Vândalos Silingos. Gunderico tornou-se "rei dos Vândalos e dos Alanos". Reunia sob seu comando Vândalos Hasdingos, Silingos e remanescentes dos Alanos, o que é evidenciado pelo título real, Rex Vandalorum et Alanorum.

Altos funcionários do Império Romano do Oriente, corrompidos, forneceram os segredos da construção naval a Genserico, o meio irmão de Gunderico, que construiu uma esquadra naval.


Representação de Vândalos e Alanos
desembarcando no Norte da África.

Em 429, o novo rei, Genserico, avaliou as possibilidades abertas pelo acesso ao mar. Liderando Vândalos e Alanos, Genserico cruzou o estreito de Gibraltar e se deslocou a leste até Cartago.

Ascensão ao trono

Filho ilegítimo do rei vândalo Godegisilo, supõe-se que Genserico nasceu nas imediações do lago Balaton (atual Hungria) por volta de 389.

Foi escolhido rei em 428, com a morte do seu meio irmão Gunderico. Brilhante e muito versado na arte militar, buscou o modo de aumentar o poder e a prosperidade do seu povo, que residia na época na Hispania Bética e que havia sofrido numerosos ataques dos visigodos. Em 429, Genserico decidiu ceder a Hispania aos seus rivais, conduzindo o seu povo para o norte da África, atraído pelas suas riquezas e pela fertilidade da região, empregando para isso a poderosa frota criada no reinado do seu predecessor.

A invasão da África

Bonifácio, governador da província da África Proconsular, rebelou-se contra o governo imperial, motivando o envio de tropas contra suas forças em Cartago. O quadro se mostrava amplamente favorável ao rei vândalo.

Aproveitando a disputa, 80.000 vândalos - 15.000 deles homens de armas - cruzaram o estreito de Gibraltar na primavera de 429, partindo de Tarifa e desembarcando em Ceuta.

Depois de várias vitórias sobre os defensores romanos, fixaram-se com controle de um território que compreendia o atual Marrocos e o norte de Argélia, pondo sob assédio a cidade de Hipona, que tomariam ao cabo de catorze meses de duros combates. No ano seguinte, o imperador Valentiniano III teve que reconhecer Genserico como soberano de todos estes territórios.

Em 435, Genserico chegou a um acordo com o Império Romano pelo qual o reino vândalo passou a ser foederatus de Roma com a concessão da Numídia. Os romanos conservaram apenas conservaram o controle de Cartago. Em 439 Genserico tomou a cidade de Cartago, capturando a frota imperial ali atracada. Com este movimento fez os vândalos donos do Mediterrâneo Ocidental, apoderando-se em seguida de bases marítimas de grande valor estratégico e comercial: as Ilhas Baleares, Córsega, Sicília e Sardenha. Roma, privada de uma das maiores zonas de produção cerealista do velho mundo, teve que comprar em seguida os grãos do norte da África para o sua própria provisão.

O Reino Vândalo


Reino Vândalo por volta de 455 d.C.

Genserico transformou o reino dos vândalos e alanos num estado poderoso (a capital era Saldae, atual Bejaia, no norte da Argélia). Os vândalos ocuparam a atual Tunísia e o Leste da Argélia; o resto, «a Africa esquecida», como lhe chama C. Courtois, o maciço de Aures, os planaltos do Oeste, a Mauritânia, escapam-lhes como tinham de fato escapado à autoridade de Roma. Genserico também conquistou a Sicília, a Sardenha, a Córsega e as Ilhas Baleares.

Os reis vândalos, embora tivessem maior confiança em seus companheiros de tribo, necessitavam da colaboração romana para viabilizar sua administração. Os germânicos haviam conquistado um território vasto e uma população considerável, vivendo há muito sob a lei romana. A organização administrativa imperial estava assentada em bases sólidas, forçando os invasores a mantê-la. Os magistrados romanos, com relevo o proconsul de Cartago, continuaram a desempenhar suas funções. O único setor privativo em mão dos Vândalos era o militar. Até o governo das ilhas, Sardenha, Córsega e Baleares era confiado a chefes guerreiros.

Os Vândalos adotaram no norte do continente africano procedimentos semelhantes aqueles dos Visigodos no sul da Gália. Também eles se tornaram grandes proprietários e habitaram entre os romanos, para quem, aliás, reservavam tarefas de natureza burocrática, solução encontrada para viabilizar o domínio de milhões de romanos e africanos por uma minoria de bárbaros, fiada no desempenho das armas, cuja posse era monopólio dos recém-chegados guerreiros germanos.


Batalha entre Berberes e Vândalos.

Os berberes no interior permaneciam insubmissos, tal como fora nos tempos de domínio militar romano. Seu exército teve que defender a fronteira contra ataques organizados por chefes berberes. Genserico se opôs a crescente pressão desses chefes.

O exército, integrado exclusivamente por Vândalos, garantia a ordem com sua poderosa cavalaria e sua esquadra, ainda que admitisse equipagens africanas, tinha seu comando oficiais bárbaros. Sua frota controlou a maior parte do Mediterrâneo Ocidental. As pilhagens em todo o Mediterrâneo alimentavam o tesouro real.

A minoria vândala não procurou fundir-se com os Romanos e Africanos, sobretudo por razões militares e religiosas. Genserico e seus sucessores quiseram preservar o valor guerreiro dos seus homens, e por isso impediram todos os casamentos mistos e toda a conversão ao catolicismo.

Perseguição Religiosa

No campo religioso os Vândalos não fazem concessões. E, progressivamente, o preconceito dos vitoriosos se traduziu em manifestações de violência e intolerância, decorrendo daí o martírio de numerosos católicos, bem como o exílio de muitos clérigos fiéis a Roma.

No campo confessional os Vândalos se identificavam com o arianismo, seguindo os preceitos da Bíblia de Ulfila, chocando-se com o expressivo contingente de católicos convictos. A monarquia vândala tinha na igreja ariana e no exército dois pilares de seu domínio. O arianismo tornou-se enraizado entre os germânicos, atingindo o ápice com a monarquia vândala no norte da África, que teve a oposição maciça da Igreja africana.

Cristão ariano, Genserico procedeu a numerosos confiscos de bens da Igreja Católica e submeteu os católicos a fortes perseguições.
Segundo Victor de Vita, historiador das perseguições, clérigos e leigos foram deportados para o Sul da Tunísia, enquanto os bispos eram exilados para a Córsega e a Sardenha ou obrigados a trabalhar nas minas. Numerosos católicos se refugiarão em Espanha, na Gália e em Itália, levando consigo importantes manuscritos, em especial os de Santo Agostinho.

Essa migração em massa para outros reinos, provocou falta de trabalhadores, e uma diminuição da produção. No final do reinado de Genserico, a opressão aliviou um pouco e foi permitido o regresso dos clérigos desterrados.

O saque de Roma

Em 455, o imperador romano Valentiniano III foi assassinado, sucedendo-o Petrônio Máximo. Genserico, considerando rompido o tratado de paz firmado com Valentiniano em 442, desembarcou na Península Itálica e marchou sobre Roma, cuja população rebelou-se contra o novo imperador e o matou três dias antes que, em 22 de abril de 455, os vândalos tomassem sem resistência a cidade.


Saque de Roma, por Heinrich Leutemann (1870).

Os vândalos saquearam a cidade por duas semanas. O saque não produziu uma destruição notável, se bem que os vândalos fizeram provisão de grande quantidade de ouro, prata e objetos de valor. Eles partiram com valores incontáveis, pilhagens do Templo em Jerusalém trazidas para Roma pelo imperador Tito Flávio.

Genserico levou consigo Licinia Eudoxia como refém a Cartago, viúva de Valentiniano, e as suas duas filhas, Placídia e Eudoxia, que contrairia depois matrimônio com seu filho e sucessor Hunerico.

A paz com o Império Bizantino


Representação da batalha naval de 468.

Em 468, o reino de Genserico teve que enfrentar ao último esforço militar conjunto das duas metades do Império Romano. O rei vândalo derrotou, frente ao cabo Bon, no nordeste da Tunísia uma poderosa frota armada romana de mais de mil naves, comandada pelo futuro imperador bizantino Basilisco.

As repetidas tentativas militares e diplomáticas para conter e derrubar o poder dos Vândalos revelaram-se infrutíferas. No verão de 474, Genserico assinou a paz perpétua com Constantinopla, pela qual o Bizâncio reconheceu a soberania vândala sobre as províncias norte-africanas, Baleares, Sicília, Córsega e Sardenha.

Morte


Efígie de Genserico.

Com a morte de Genserico em 477, seu filho Hunerico tornou-se rei. O reino Vândalo quando da morte de Genserico, principal arquiteto e planejador do seu poderio, parecia consolidado dominando com sua frota todo o Mediterrâneo Ocidental e suas ilhas. Seus sucessores radicalizaram as perseguições, fazendo da deportação maciça de clérigos um instrumento de afirmação de poder. Ainda que soberanos como Guntamundo (484-496) e Trasamundo (496-523) tenham incentivado atividades culturais, essa atitude não arrefeceu a dura condição dos católicos sob o domínio arianista.

Fontes: Wikipédia / História do Mundo / Revista Mundo Estranho / Blog Antiguidade Tardia / www.nea.uerj.br / Infopédia

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Invasões Germânicas na Península Ibérica

No inverno de 406, aproveitando a fusão do rio Reno, Vândalos, Suevos e Alanos invadiram o Império Romano. Ao cabo de três anos, cruzaram os Pirineus e chegaram à península Ibérica




A desagregação de Roma alastrou-se a todas as províncias, onde veio a abalar o poder político e a paz. Na Península Ibérica, parece desaparecer a estrutura provincial. A crise da política imperial conduziu à divisão do império. Em 395, Arcádio governava Império Oriental, enquanto Honório governava o Império Ocidental. Em 407, o general comandante das legiões romanas nas Ilhas Britânicas auto-proclamou-se Imperador do Ocidente, com o nome de Constantino III.

Neste período de grande instabilidade e confusão, iniciou-se a invasão de grupos germânicos que, com o aparecimento dos Hunos, tinham sido deslocados dos seus territórios. Esta grande invasão consistiu numa movimentação continuada e demorada que, historicamente, se diz ter-se iniciado a 31 de Dezembro de 406.

Nesta fase, os povos que entraram no império eram oriundos de diferentes regiões (Vândalos, Suevos, Alanos, etc.) e não encontraram grande resistência por parte das guarnições romanas. Os Bárbaros entraram nas províncias romanas sem encontrar uma forte oposição organizada. Mas, quando chegaram à linha dos Pirenéus, debateram-se com Exércitos constituídos pelos servos ao serviço dos proprietários desses grandes latifúndios.

Entre 407 e 408, a Hispânia manteve a sua defesa, enquanto as tribos bárbaras deambulavam pela Gália. Contudo, em 409, a pressão aumentou sobre as forças que defendiam os Pirenéus. Apesar disso, não foram os Bárbaros, mas os Romanos (partidários de Constantino III) que atacaram e aprisionaram estes homens, abrindo caminho às hordas de bárbaros que invadiram e saquearam a Península Ibérica. A região era mais pobre do que a Gália e, submetida à pilhagem, nela espalhou-se a fome, que dois anos depois atingiu também os invasores.

Entre os Bárbaros surgiu uma tribo germânica que se instalou na Península Ibérica. Os Visigodos vinham da Europa Oriental, mas representavam já uma segunda geração romanizada. Este povo, que teve em Alarico um grande líder, chegou em 415 com Ataulfo à Tarraconense como aliado dos Romanos. Os Visigodos pagaram o direito de ocupar a terra da Hispânia, com a obrigação de guerrear com outros Bárbaros que ali se tinham instalado. Mediante um tratado com os Romanos, instalaram-se numa parte da Península Ibérica e no Sul da Gália. A sua intervenção veio contribuir para agravar o clima de violência vivido no século V, ao envolverem-se com outros povos germânicos que estavam a chegar a estes territórios.

Os Vândalos disputavam com os Suevos a posse de algumas regiões montanhosas no Norte, mas voltaram-se para sul, passando por uma grande parte daquilo que veio a ser o território português, até chegarem a Mérida. Em 426 eram senhores da Bética, contudo, a fome obrigou-os a passar Gibraltar em 429.

Os Alanos e alguns Vândalos que foram derrotados pelos Visigodos e os restantes fugitivos foram juntar-se aos Suevos, que se mantinham no Noroeste da Península (entre o Douro e Mar Cantábrico).

Os Suevos terão sido marcantes na Península. Entre os invasores, apenas os suevos apresentavam uma organização política. O bispo Idácio não descreve de uma forma muito simpática os Suevos, porque foi atingido pela sua violência quando presidia à comunidade cristã de Chaves. Nos seus relatos refere que os Bárbaros protegiam os rudes camponeses que, nos castros, continuavam fiéis à memória de Prisciliano.

Idácio descreve a expansão dos Suevos até Lisboa, o que significava que o Rio Douro tinha sido transposto pela primeira vez como fronteira natural entre duas regiões politicamente diferentes. A Galécia e a Lusitânia apareciam unidas num espaço que viria, mais tarde, a ser o núcleo inicial de Portugal.

Ele diz-nos que Lisboa foi entregue sem guerra aos Suevos. Certo é que o Rei suevo Réquila (438-448) saiu da Galiza e conquistou Mérida, cercou Mértola e ocupou Sevilha. Requiário (448-456), seu sucessor, continuou a expansão e casou-se com a filha de Teodorico; invadiu a Tarraconense, vindo depois a assinar um tratado de paz com os Romanos e com os visitados, o que não o impediu de voltar a guerrear. Entrou na Gália e ameaçou Tolosa, a capital dos Visigodos. Perante esta ameaça sueva, Visigodos e Romanos uniram-se para derrotar Requiário, que se refugiou em Braga, cidade que não escapou ao saque. Em 457, o líder suevo era definitivamente derrotado pelos seus inimigos.

Fontes: Infopédia / Passeiweb / Wikipédia

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Germanos e Romanos

Ao invadirem os territórios do Império Romano do Ocidente, os povos germânicos entraram em contato com a cultura e as tradições romanas


Batismo em Reims de Clóvis I, rei dos francos;
A conversão de Clóvis ao cristianismo, a religião da
maioria dos seus súditos, fortaleceu os laços entre seus
súditos romanos e os conquistadores germânicos.

Durante várias gerações, esses dois povos viveram juntos, mas sempre mantendo suas diferenças. Por exemplo, os casamentos mistos eram pouco freqüentes, pois as respectivas leis não os reconheciam. As normas eram distintas: havia o direito romano e também as leis dos diferentes povos germânicos, conforme suas tradições. Tinham também religiões diferentes. Com o tempo, e sobretudo a partir do século IV, os dois povos foram se fundindo, dando lugar a uma nova cultura.

Os costumes dos germanos

Esses povos moravam em cabanas, dedicando-se à guerra e à agricultura. Viviam em famílias. Os homens tinham uma só mulher. Quando uma pessoa era ofendida por outra, permitia-se a vingança. O ofendido e seus familiares atacavam o ofensor e seus parentes. Formavam grupos de guerreiros ligados ao chefe militar por um juramento de fidelidade, o Comitatus (companheirismo, em latim).

A ruralização da sociedade

Com a queda do Império Romano do Ocidente, as cidades e o comércio perderam sua importância. A agricultura e a criação de gado tornaram-se as atividades básicas da economia. A posse de terras era a única fonte de riqueza. Cada comunidade vivia dos seus cultivos e seus animais, o que repercutia na cultura. Assim, essa sociedade rural era bem diferente da sociedade urbana que fora criada por Roma, já que as riquezas do campo passaram a substituir as da cidade.

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Leia também!

► As influências germânicas e
romanas no Ocidente Medieval


► Tradições poderosas
de povos guerreiros


► A »Cortina de Ferro«
da Antiguidade


► A conversão religiosa
dos germanos

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Tradições poderosas de povos guerreiros

Oráculos, leituras de relinchos de cavalos e valorização do caráter divino das mulheres: essas eram algumas das características que eram próprias da magia de povos como os germanos e outros a eles associados




Os povos germânicos, que compreendem tanto os germanos das épocas de César e Tácito quanto os vikings escandinavos, tinham a magia como uma forte aliada em seu modus vivendi. No entanto, a magia estava diretamente ligada à religião e esta tinha como uma de suas ferramentas mais eficazes o oráculo. Os primeiros relatos sobre os germanos vêm de Júlio César (100-44 a.C.), em sua Guerra das Gálias. De acordo com o grande general romano, esses povos eram muito dependentes de oráculos. Ao perguntar a prisioneiros por que razão o chefe dos suevos Ariovisto (101-cerca de 54 a.C.) não estava disposto a travar uma batalha geral, ouviu deles que as mulheres consultaram os oráculos e viram que esse não era o momento certo para lutar, pois "os germanos não poderiam ser vencedores se travassem combate antes da lua nova" (CÉSAR, 1989).
Logo mais adiante, César relata que, após resgatar um de seus melhores homens das mãos dos germanos, Caio Valério Procilo, este ouviu de seus captores que por três vezes tiraram a sorte para ver se o queimavam logo ou o reservavam para uma outra ocasião. Procilo acrescentou que só estava vivo por conta da sorte. Outro que observou os costumes das tribos germânicas foi Públio Cornelius Tácito, cônsul e historiador romano (54-120 d.C.). Em sua Germânia, ele nos conta que, mais do que qualquer outro povo, os germanos acreditavam nos auspícios e na adivinhação. Segue uma descrição do primeiro lançamento de runas de que se tem notícia:

“A sua maneira habitual de consultar a sorte é muito simples: cortam duma árvore com fruto uma haste que separam em vários pedaços; depois de os terem marcado com certos sinais, lançam-nos ao acaso sobre um pano branco; em seguida, o sacerdote da tribo, se o caso é de interesse público, ou o pai de família, se trata dum assunto de ordem privada, invoca os deuses, contempla o céu, ergue três vezes cada pedaço, um após outro, e, segundo a marca precedentemente traçada, tira o horóscopo. Se os fragmentos da haste se pronunciaram no sentido duma proibição, não se pode tornar a consultar a sorte nesse dia sobre o mesmo assunto; se, pelo contrário, é no sentido duma autorização, exige-se que a resposta seja confirmada ainda pelos auspícios” (TÁCITO, sem ano).

Relinchos de cavalos

Os germanos utilizavam-se ainda de outros oráculos. Além de desenvolverem a arte de interrogar o canto dos pássaros, interpretavam o voo deles. Consultavam também os relinchos e o resfolegar de cavalos brancos. Tais animais, que nunca eram usados para trabalhos profanos, eram alimentados à custa da nação em florestas e bosques. Atrelados ao carro sagrado, os cavalos brancos eram acompanhados pelo sacerdote, juntamente com o rei ou o chefe da tribo. Seus relinchos e resfolegares eram observados cuidadosamente. Esse oráculo era da mais alta confiança. Desde os homens mais simples até as grandes autoridades, todos confiavam plenamente nele, pois os sacerdotes acreditavam que esses cavalos brancos eram os confidentes dos deuses, enquanto eles eram apenas os ministros. No caso do desenlace de uma guerra, Os auspícios eram interpretados de uma forma peculiar. Um prisioneiro da nação que estava em guerra com os germanos e que havia sido capturado surpreendentemente, era escolhido para lutar com um de seus compatriotas. Cada um teria que lutar com a arma característica de seu país. O vencedor do duelo designava a nação vitoriosa. Tal prognóstico era tido como infalível. Quando os germanos iam tratar de alguma questão importante referente às suas tribos, reuniam-se em assembleias em determinados dias, que correspondiam aos períodos da lua nova ou da lua cheia: "Segundo eles, não há auspícios mais favoráveis para se começar a tratar duma questão" (TÁCITO, sem ano).

Predições Femininas

As mulheres possuíam uma posição de grande respeito entre os germanos. Eles acreditavam que havia algo de divino e profético nelas. Por esta razão, sempre ouviam seus conselhos e acreditavam piamente em suas predições. Duas delas se tornaram tão famosas que foram cultuadas quase como se fossem divindades: Aurínia e Veleda. Quanto a esta última, vivia entre os Bructeri, reclusa em uma torre. Lá, ela atendia as pessoas, sendo intermediada por um parente. Este interpretava suas respostas, tal como o sacerdote do Oráculo de Delfos, que, após ouvir a pitonisa, "arrumava" suas palavras e as passava ao consulente. Segundo Patrick Louth, em seu livro A Civilização dos Germanos e dos Vikings, há uma descrição de Veleda, conhecida como "aquela que vê", que consta do nono livro de uma obra denominada Mártires, de autoria de Chateaubriand: "Sua estatura era elevada; uma túnica negra, curta e sem mangas servia apenas para velar sua nudez. Carregava uma foice de ouro presa num cinto de bronze, e estava coroada com um ramo de carvalho.
A brancura de seus braços e da sua tez, seus olhos azuis, seus lábios rosados, seus longos cabelos louros que esvoaçavam soltos caracterizavam uma jovem gaulesa, e a suavidade do conjunto contrastava com seu porte altivo e selvagem". Apesar de Chateaubriand descrevê-la como uma gaulesa, e do seu nome ser de origem céltica, Veleda era uma vidente germânica. Ela só predizia aos germanos e exaltava os grandes chefes, tais como Civilis, líder da rebelião dos batavos contra os romanos em 69 d.C..

Quando a frota desse líder germânico se apoderou de uma frota romana, ele ofereceu a galera pretoriana a Veleda. Enviada a Roma como embaixatriz para negociar a paz, Veleda, poeno entanto, sete anos depois, incitou os germanos para um novo levante contra os romanos. Mais tarde, foi aprisionada e deportada. Segundo o historiador Johnny Langer, em seu artigo intitulado Religião e Magia entre os Vikings:
Uma Sistematização Historiográfica, a religião escandinava durante a Era Viking (séculos VIII a XI) não era organizada, não possuindo templos, dogmas, sacerdotes especializados ou orações. Limitava-se a cultos nos quais a magia era o ponto central. No entanto, era muito objetiva, baseando-se na expressão "dou para que me dês". Geralmente, o escandinavo escolhia um fulltruí (protetor), que chamava de amigo, portando, inclusive, um amuleto com sua imagem. Invocava o seu deus sob a forma de petição e não de oração: "Ofereço-te isso e me darás aquilo em troca". Como não havia uma ordem sacerdotal constituída, cabia aos reis e chefes o ministério da fé nos deuses. Na Islândia, eles eram conhecidos como goðar (singular goði). O blót era um sacrifício semidivinatório e semipropiciatório, considerado como o grande ritual da magia germano-escandinava. Sua finalidade era reforçar os poderes da divindade, para que esta pudesse realizar aquilo que era desejado pelo fiel. Assim como as germanas, as escandinavas estavam diretamente ligadas à religião.

Suevos

Os suevos constituíam uma poderosa confederação de tribos germânicas que habitavam a região situada ao norte do rio Reno. Aparecem em A Germânia, de Tácito, como um dos povos que se originaram do deus Manos, que por sua vez era filho de Tuísto, nascido da Terra. Ele diz ainda que essas tribos cultuavam a deusa Ísis, cujo símbolo era um pequeno navio, o que atesta a sua origem estrangeira.
Os suevos usavam os cabelos para trás, presos por um nó, que os diferenciavam tanto dos demais germanos quanto dos escravos. Tinham por hábito também levantar os cabelos, dando um nó no alto da cabeça. Os chefes faziam isso com uma arte toda especial.

Não se tratava de vaidade, mas de uma maneira de parecerem mais altos e mais terríveis aos olhos do inimigo, quando avançavam para o combate. Dentre os suevos, destacavam- se os Sémnones, pois eram os mais antigos e nobres. Tal fato é confirmado por um remoto culto religioso praticado por eles.
Numa época determinada, grupos de deputados de cada uma das tribos que compunham a nação dos Sémnones reuniam-se em um bosque sagrado e consagrado pelas cerimônias realizadas ali por seus antepassados. Um homem, então, era decepado em nome de todo o povo, dando início aos horríveis mistérios desse culto bárbaro.
O respeito por esse bosque era tão grande que aqueles que penetravam nele o faziam com os pés amarrados, para reconhecer a sua inferioridade perante o deus que governa todas as coisas. Se por um acaso, um indivíduo caía, não lhe era permitido levantar-se: ele tinha que ir se arrastando pelo solo até a saída da floresta.

Odin

Usavam vários instrumentos de magia, inclusive as runas, para trabalhos de controle dos elementos da natureza, proteção, cura e adivinhação. No entanto, apareciam mais nos ritos domésticos e familiares do que nos ritos públicos. Os membros da elite nórdica cultuavam Odin (correspondente ao Wotan germânico) e acreditavam que iriam para o Valhalla, o paraíso nórdico, após a morte. Já os camponeses e fazendeiros preferiam o deus Thor (o Donner germânico) e os deuses Vanir (deuses relacionados com as questões de fertilidade, fecundidade, paz, prazeres, etc.). Eles acreditavam que quando morressem seriam recebidos pelo deus do trovão em seu grandioso palácio, chamado Bilskirnir, o maior de todos, pois, segundo Snorri Sturlusson, em sua Edda em prosa, "naquela fortaleza há seiscentos e quarenta aposentos e ela é a maior morada conhecida pelos homens".

Óðinn, o deus supremo do panteão escandinavo, pertencente à principal estirpe dos deuses, os Æsir, estava diretamente ligado à magia. A criação mítica das runas é atribuída a ele. Diz o mito que, após dar o seu olho esquerdo em troca de um gole da fonte da sabedoria, guardada pelo sábio Mímir, feriu-se com a própria lança e se dependurou nos galhos de Yggdrasil, a árvore-sustentáculo do cosmos. Ficou balançando por nove dias e nove noites sem nada comer e sem nada beber. Ao final desse período, vislumbrou as runas, símbolos da tão almejada sabedoria. Tal episódio é descrito no Hávamál, poema constante da Edda maior ou Edda poética, que, juntamente com a Edda menor ou Edda em prosa, ou ainda Snorra edda, do líder islandês Snorri Sturlusson, constituem os épicos escandinavos. Óðinn, suspenso pelos pés, teria dito o seguinte, de acordo com o Hávamál (os ditos de Har, ou Odin):

"Sei que pendi nove noites inteiras da árvore que balança ao vento; ferido de lança e a Odin oferecido - eu mesmo oferecido a mim mesmo - pendi da árvore que ninguém sabe as origens de suas raízes. Nem pão me estenderam nem copa alguma Fixo no fundo olhei; As runas alcei, as ganhei entre gritos; Caí por terra de novo."

A perda do olho esquerdo, na verdade, não foi suficiente para que Odin adquirisse a sabedoria. Era necessário algo mais. Como foi dito acima, o rei dos deuses nórdicos "depois de se ferir com a própria lança, precisou se dependurar nos galhos de Yggdrasil, o freixo que, segundo os escandinavos, era o sustentáculo do mundo, ali ficando por nove dias e nove noites. Ao final da última noite, surgiu então a sabedoria, o conhecimento por meio das runas" (MONIZ, Luiz Claudio, 2007).
O episódio do sacrifício de Odin trata-se de um antigo rito de mutilação "praticado por xamãs de várias tribos indo-europeias no intuito de adquirir tanto saber quanto poder. Odhinn-Wotan é um deus sacerdote, sendo colocado por Dumézil na primeira função a da soberania" (MONIZ, Luiz Claudio, 2007).

Hilda Davidson, em seu livro Deuses e Mitos do Norte da Europa, reconhece nas práticas sacrificiais de pendurar homens em árvores, práticas essas associadas tanto ao Wotan germânico quanto ao Óðinn escandinavo, atributos xamanísticos. Ela acrescenta que "há uma boa dose de evidências em várias partes do mundo a respeito do treinamento de homens e mulheres jovens para se tornarem xamãs".
Nos relatos de cerimônias de iniciação vividas pelos noviços, há semelhanças com essa imagem do deus em sofrimento. Tido como o criador mítico das runas, Óðinn é tanto o detentor de sua magia quanto da técnica de sua utilização como oráculo. As runas, na verdade, não são símbolos mágicos, são letras que compõem um alfabeto.

Eram utilizadas, no entanto, para fins objetivos tais como a escrita, mas podiam ser manuseadas para a prática de magia e como oráculo. Cada letra possuía um efeito especial de feitiço que o Rúna-meistari, o especialista em runas, conhecia muito bem. Segundo Langer, a prática da gravação de runas era um privilégio da aristocracia, inclusive existiam escolas especializadas no assunto. As runas eram gravadas em objetos no intuito de serem usados como uma espécie de talismã, cujo objetivo era a proteção. Armas foram marcadas com a runa conhecida como Týr, atribuída ao deus de mesmo nome, o deus da guerra, dos juramentos e tratados. Týr, juntamente com Óðinn, como já foi visto anteriormente, foi colocado por Georges Dumézil na primeira função de sua teoria trifuncional. A utilização mágica das runas, conhecida como valgalldr, era indicada para várias situações. Além de proteger objetos, tais feitiços podiam, segundo Langer, "extinguir fogos e tempestades, curar, cicatrizar feridas, obter amor de uma mulher e discorrer sobre o futuro". Langer diz ainda que havia runas da vitória (sigrrúnar), gravadas nas espadas; runas da cerveja (ölrúnar), gravadas nos cornos de beber; runas de proteção (bjargrúnar), que eram inscritas sobre a cabeça do indivíduo que fazia os partos; runas de ondas (brimrúnar), gravadas em navios, no intuito de protegê-los; runas de ramos (limrúnar), gravadas na madeira para favorecer as curas; runas da fala (málrúnar), cujo objetivo era dar eloquência aos oradores nas assembleias e as runas de sentido (hugrúnar), que facilitavam o entendimento das coisas. Havia também runas tidas como secretas e que eram de dois tipos: as "runas suspensas" e as "runas de ligadura", que eram utilizadas "como escritas secretas, ações militares, manuscritos e procedimentos mágicos" (LANGER, Johnny, 2005).

Segundo as Eddas, Óðinn, além do domínio de alguns tipos de magia, como a rúnica, aprendeu com a deusa Freia, a magia seiðr. De acordo com Snorri, Freia, além de seus atributos conhecidos por todos, tais como a beleza, o amor e, como líder das valquírias, a condução das almas dos mortos, era também uma sacerdotisa Vanir. Ela teria ensinado o seiðr aos deuses Æsir, especificamente a Óðinn. Segundo as fontes, usava-se para a prática desse tipo de magia uma plataforma elevada sobre a qual a volva (ou um indivíduo do sexo masculino) se sentava, entoava encantamentos e entrava em um estado de êxtase. Às vezes, o ritual era acompanhado de outras pessoas que formavam um coro, além de tocar música, algo parecido com as tragédias gregas. Quando a cerimônia terminava, a volva respondia às perguntas a ela dirigidas, geralmente envolvendo a estação vindoura, a esperança nas boas colheitas e os futuros relacionamentos entre os homens e as mulheres da aldeia. O seiðr, algumas vezes, era mencionado como um tipo de magia prejudicial.

De fato, Georges Dumézil em Do Mito ao Romance, fala da diferença entre as magias dos Æsir e dos Vanir, dizendo que a desses últimos seria inferior, baixa, repugnante e censurável, enquanto a dos primeiros seria nobre. No entanto, o seiðr aparece, na maioria dos relatos, como uma magia de adivinhação. Hilda Davidson diz que as volvas praticantes do seiðr "costumavam viajar pela região para visitar as fazendas e estar presentes às festas, e que costumavam dar respostas àqueles que lhes faziam perguntas".

Runas

As runas são letras germano-escandinavas que formavam um alfabeto chamado Futhark. Além da utilização em poemas, epitáfios, pedras comemorativas e registros de transações comerciais, as runas foram e são largamente usadas também em sua forma mágica e sagrada, ou seja, como oráculo e como fonte de encantamentos. O epigrafista Raymond Page diz que o Futhark Antigo, composto por 24 runas, desapareceu a partir do séc.
As runas são letras germano-escandinavas que formavam um alfabeto chamado Futhark. Além da utilização em poemas, epitáfios, pedras comemorativas e registros de transações comerciais, as runas foram e são largamente usadas também em sua forma mágica e sagrada, ou seja, como oráculo e como fonte de encantamentos. O epigrafista Raymond Page diz que o Futhark Antigo, composto por 24 runas, desapareceu a partir do séc.
Os vikings utilizaram-se das runas para práticas mágicas e oraculares, no entanto, os métodos para a leitura são desconhecidos, assim como as letras que eram empregadas. Segundo o dr. Johnni Langer, "somente as 16 runas do sistema novo (ramas longa e curta) continuaram a ser utilizadas para operações mágicas entre os vikings, mas não sobreviveram vestígios físicos para comprovar isto, a não ser espadas e lanças com a runa Tiwaz".

.:: Leituras da História

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ariovisto

Ariovisto (101 a.C. — cerca de 54 a.C.) foi o chefe do povo germânico dos suevos, como conta Júlio César no De Bello Gallico.


Rendição de Ariovisto ante César.

Em 75 a.C, os germanos chegam aos arredores de Moguntiacum sob o comando de Ariovisto, onde eles atravessam o rio Reno em direção da Gália. Em 61 a.C., ouvindo o apelo dos aliados sequanos, os suevos passam o Reno e infligem uma dura derrota aos eduenos (representantes do "partidários pró-romanos" na Gália independente) sem que Roma venha lhes prestar ajuda. Ariovisto decide então estabelecer seus 120 mil homens em um terço do território de seus aliados sequanos (entre as atuais Alsácia e Franche-Comté), decisão imposta pela força na batalha de Admagetobriga (hoje La-Moigte-de-Broie, perto de Pontarlier).

Tentando controlar sua fronteira setentrional bastante vulnerável, Roma saúda Ariovisto em 59 a.C., dando-lhe o título de "rei e amigo do povo romano".


Império Suevo de Ariovisto.

Segundo Guillon, historiador da Universidade de Provença, em Marselha, no século 1 a.C., o conquistador mais temido na Gália não se chamava Júlio César. Era Ariovisto, o rei dos suevos. “No norte, seu poder chegou a ponto de ser uma ameaça à influência de Roma na região”, afirma Guillon.

Julio César entrou em ação a pedido dos sequanos para neutralizar Ariovisto que assolava a região. Seu objetivo era impedir por meio militar que o líder suevo implantasse, como era o intento dele, uma Gália Germânica na parte setentrional da França atual.

Os suevos foram derrotados perto de Besançon, na Alta Alsácia. Vencido e ferido, Ariovisto consegue se retirar para além do Rio Reno graças a uma artimanha (descrita como de baixo nível pelos romanos) feita em Cernay.

Fontes: Wikipédia / Aventuras na História / Educaterra / Satrapa

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Reinos Germânicos do Ocidente Peninsular

Dos povos germânicos vindos do Norte e que invadiram a Península no início do século V dois irão desempenhar um papel muito importante neste território: os Suevos e os Visigodos


Reinos Visigodo e Suevo por volta de 560 d.C..

A chegada dos guerreiros germanos vem na sequência da pretensão de Constantino III em dominar toda a Hispânia a partir da Gália, rivalizando com Gerôncio, que por seu turno recorreu ao auxílio de forças externas para poder também governar a Gália. Os dois rivais acabaram por não conseguir os seus intentos, pois foram vencidos por Máximo, que pacificou a Hispânia. Os "bárbaros" instalaram-se então no território, tomando as cidades e espalhando um clima de violência.

Os Suevos estabeleceram-se em 411 no Norte da Península - Bracara Augusta (Braga), Aquae Flaviae (Chaves), Portucale (Porto), Lamecus (Lamego) e Tui -, tendo por vizinhos os Vândalos Asdingos, que ficaram com a parte oriental da Galécia. Nas cidades, mais fortemente romanizadas e protegidas, a penetração de suevos e vândalos foi mais difícil, mas nas zonas rurais a situação era bem diferente, pois constituía território mais vulnerável, sendo, por isso, alvo de total destruição e saque à chegada dos invasores.

Livres dos Vândalos Asdingos em 429, quando estes se transferiram para o Norte de África, os Suevos construíram um reino que teve o seu período mais brilhante no século V, época de consolidação entre 430 e 456.
O convívio dos suevos com os hispano-romanos, mais propriamente com os galaico-romanos e com um sem-número de estrangeiros - gregos, sírios, egípcios, judeus, etc., detentores de um comércio muito ativo - foi relativamente pacífico após a negociação de paz entre os povos efetuada pelo bispo galaico-romano Idácio, depois de 431. A partir de 438, iniciaram a sua expansão, quando Réquila invadiu a Bética e assolou algumas cidades da Lusitânia como Mérida e Mértola e depois Sevilha. Réquila dominaria este território até 446. No entanto, os feitos militares não tiveram grandes resultados futuros devidos a uma má administração das conquistas e a uma falta de efetivos para manter os territórios conquistados. Preferiam dar mais atenção aos saques e aos despojos de guerra do que promover um programa eficaz de povoamento e ocupação das terras, com melhores resultados a longo prazo.
Apesar de em menor número, durante muito tempo combateram com o outro povo germânico, que também se estabelecera no mesmo território pela mesma época - os Visigodos. Estes mostravam um maior avanço civilizacional e rapidamente atingiram o Império Suevo com a penetração na Galaécia, em 455, e a tomada de Bracara, em 456, sob Teodorico II, tendo o rei Requiário sido aprisionado e morto.

O Império Romano nunca se conformou com a perda dos territórios da Hispânia e não desistia de encontrar uma solução para os reaver. A chegada do exército dos visigodos ocorre na sequência de um pedido de auxílio por parte dos hispano-romanos da região de Tarragona e Lérida, como forma de acabar com a opressão dos suevos e do não cumprimento de um acordo estabelecido por Requiário, quando atacou o território da província romana designada de Cartaginense. Constitui também uma manobra estratégica de o imperador romano vir a dominar novamente a Hispânia.
No entanto, este episódio não precipitou o fim dos suevos, pois um novo período foi iniciado por Maldras, ocupando territórios partilhados com os visigodos. Maldras matou Agiulfo, o rei suevo nomeado por Teodorico II, e tomou o poder. Como não foi reconhecido por todos os suevos, originaram-se divisões dentro do reino. Após o seu assassinato, o reino cai na anarquia, arruinando-se os campos e as cidades. Combateram contra os visigodos apoiados pelos hispano-romanos entre o período de 457 e 469. Após este período, perderam a importância que detinham, restringindo-se aos territórios do Norte: Galaécia e os bispados de Veseo e Conímbriga. Os visigodos iam-se destacando tendo como aliados os já mencionados hispano-romanos e os galaico-romanos.
Não se podem ignorar os conflitos religiosos que tiveram lugar entre os povos germânicos e entre estes e as comunidades cristãs que já se encontravam implantadas no território, pelos menos a partir de meados do século III. Na altura do ataque bárbaro estas comunidades eram ainda muito vulneráveis e estavam confinadas principalmente às cidades, pois os campos manifestavam um forte apego à idolatria, superstições e manifestações pagãs. Religiosamente, os Suevos eram pagãos posteriormente convertidos ao cristianismo. Requiário converteu-se em 448, denotando uma assimilação da cultura latina. Destaca-se a excelente organização eclesiástica de que dotaram o reino com a fundação de dioceses, sendo as mais importantes a de Bracara e de Lucus. Faziam frente aos visigodos, que mantinham um arreigado arianismo, ao qual se converteu o filho do rei Maldras, provavelmente como forma de manter o seu reino.
Vai caber a Remismundo a unificação do poder. Teodorico II propõe outro chefe para os Suevos em 464, desta vez Remismundo, que, através do casamento com uma mulher visigoda, formaliza a aliança suevo-visigótica. A sua maior expressão foi a conversão dos suevos ao arianismo, mas esta aliança no entanto, teria um fim próximo. Embora os suevos continuassem a combater os visigodos no Sul, as escaramuças não tinham grande expressão e confinaram-se a territórios do Norte. Sensivelmente a partir de 469, a implantação dos dois povos estabilizou-se: os suevos dominavam a Galécia e a Lusitânia setentrional e os visigodos a Bética e a Lusitânia meridional.
A partir de 470, verificou-se uma progressiva hegemonia do povo visigodo, primeiro sob o reinado de Eurico (466 a 484), irmão de Teodorico, e depois durante o reinado de Alarico II, a partir de 484. Foi durante o reinado deste último, que os visigodos se estabeleceram de uma forma expressiva na Hispânia, abandonando a Gália para os Francos. Contrariados, os suevos foram restringidos a uma pequena área constituindo uma espécie de protetorado visigótico. Alarico II, filho de Eurico, destacou-se pela vontade de assimilação da cultura romana, visível através do ato de promulgação da Lex Romana Visigothorum, que esteve na base do código jurídico em vigor até ao século XIII, e da reconciliação com os bispos católicos.

Com a morte de Alarico II, na guerra com os francos na batalha de Vouillé (507), o reino visigótico estava na iminência de se extinguir não fosse a intervenção de Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos, que entregou a coroa ao seu neto Amalarico. Confiou também a chefia do exército aos ostrogodos que casaram com mulheres visigodas. Desta forma, Teodorico exercia um protetorado ostrogodo sobre os visigodos na Hispânia. Com a morte de Teodorico, em 526, verificou-se um período de instalibidade que Amalarico não conseguiu resolver. Também os Ostrogodos respeitaram a cultura hispano-romana, o clero e os membros da autoridade civil. É neste período que se verifica uma crescente atividade da Igreja hispânica com a realização de concílios, o desenvolvimento da cultura escrita e a construção de mosteiros e basílicas. Apesar de professarem o arianismo, os Visigodos deram liberdade de ação aos bispos católicos.
Lentamente, os Visigodos consolidaram a sua autonomia, pois Amalarico, que governou até 531, conseguiu a restituição do tesouro régio que estava em Ravena e procedeu ao repatriamento dos soldados ostrogodos. A autonomia total relativamente aos Ostrogodos foi conseguida em 549 com a eleição de Águila, que tenta estabelecer-se no Sul, ação dificultada pelos hispano-romanos, suevos e bizantinos.

É durante o século VI que se destaca a figura de um monge húngaro oriundo da Panônia no estabelecimento da Fé Católica entre os povos bárbaros, principalmente entre a elite dirigente, numa primeira fase, atingindo posteriormente as restantes camadas sociais - Martinus, depois São Martinho de Dume. É através da sua ação que o rei Carrarico dos suevos se converte ao cristianismo, cerca de 550. Fundou em Dume um mosteiro segundo a tradição oriental, reorganizou a Igreja sueva e deixou vários escritos de combate às superstições que se verificavam nos campos e à heresia priscilianista. Quando morreu, em 579, era bispo de Braga.

Até ao reinado de Leovigildo, o reino visigótico estava enfraquecido política e economicamente, devido ao agravamento das lutas entre cristãos tradicionais e arianos.
Nada se sabe relativamente aos suevos em datas posteriores a 550 e a antes de 469. É provável que a sua fronteira territorial, que ia até Coimbra e Idanha, não tenha sofrido alterações. Voltam a entrar em conflito com os visigodos governados por Leovigildo, que iniciou o seu reinado em 570. É este novo rei dos Visigodos que, associando ao trono os seus dois filhos Recaredo e Hermenegildo, inicia uma série de campanhas de conquista acabando por unificar toda a Hispânia sob o seu ceptro. Tem lugar uma época brilhante de florescimento cultural e de desenvolvimento do cristianismo. A partir de 580, o clero acabaria depois por entrar em controvérsia com os arianos.
O príncipe Hermenegildo casa com uma princesa cristã (579), passa a governar a Bética e converte-se ao cristianismo, distanciando-se assim da política de seu pai Leovigildo, provocando reações por parte dos arianos. Este ainda tentou uma conciliação das partes em conflito mas sem sucesso. Hermenegildo mostrou-se intransigente e pede auxílio aos suevos e aos bizantinos. O conflito resultou na morte de Miro, rei dos Suevos (582), e na prisão e assassinato de Hermenegildo (585). Vitorioso, Leovigildo aproveitou para finalmente anexar o reino suevo ao visigótico, propósito que já tinha em mente quando, em 576, atacou o rei Miro.
Os suevos passaram a viver sob o domínio visigodo, assegurado pela presença do seu exército. Foram confinados ao território da Galécia e os bispos de Lugo, Tui, Porto e Viseu converteram-se ao arianismo. A partir desta altura, cai o silêncio sobre este povo, fruto do processo de assimilação no seio do reino visigótico. Por sua vez, os Visigodos convertem-se ao cristianismo por decisão de Recaredo, entre 585 e 589, colocando fim às querelas religiosas.
Relativamente ao reino suevo, o reino visigótico parece ser mais evoluído, quer no tocante à cultura, quer no que respeita às instituições sociais e políticas. No entanto, esta visão poderá ser fictícia apontando-se as seguintes razões: os Visigodos eram, de fato, os mais romanizados, mas mantiveram, acima de tudo, o seu carácter guerreiro; enriqueceram à custa da apropriação de territórios, dos bens inerentes e dos impostos cobrados; exerceram uma autoridade baseada no uso da força e da riqueza acumulada; serviram-se de leis hispano-romanas; respeitaram o clero e aproveitaram os seus conhecimentos; continuaram a tradição artística e cultural já enraizada de feição hispano-romana, pouco trazendo de novo. A idéia de que o período visigótico é brilhante foi difundida e sustentada por clérigos e monges. Os códices legados às gerações posteriores, contendo regras do direito civil e canônico e os textos litúrgicos foram ciosamente guardados pelo clero. No entanto, todos eles são cópias de textos elaborados pela elite hispânica anterior à sua chegada.
Relativamente às estruturas administrativas, tanto Suevos como Visigodos não trouxeram qualquer novidade com a continuação da divisão em civitas, territorium e conventus, que iriam depois desaparecer. Os visigodos assumem portanto o papel de imitadores de uma cultura que não era a sua.

A partir de 586, a seguir à morte de Leovigildo, toma lugar no trono o seu filho Recaredo, cujo reinado (até 601) irá marcar o último período de esplendor da monarquia visigótica. O rei converteu-se ao cristianismo em 589 juntamente com os bispos arianos, fazendo cessar os conflitos religiosos. Com o fim do seu governo emergiu uma acentuada crise política coadjuvada por calamidades e pestes que enfraqueceram o reino durante um longo período (601-642). Ainda se conseguiu recuperar algum esplendor entre os anos da governação autoritária de Quindasvinto (642 a 655) e de Recesvinto (655 a 672). Após a morte deste último, e sob o ceptro do rei Vamba, o reino visigótico entrou numa conjuntura de crise política, decadência administrativa, crise social com a luta entre facções da nobreza, crise econômica motivada pela desarticulação do comércio e da produção e crise populacional que viu o seu número drasticamente diminuído pelas pestes e fomes. O reino caminha irremediavelmente para o fim, que ocorre quando já não consegue suster o avanço muçulmano (711 a 714) que o destrói.
Vitiza, rei dos Visigodos, morreu em 710 e surgem dois candidatos ao trono: Rodrigo (ou Roderico) e Áquila. A divisão dos nobres no apoio ao sucessor do trono implicou o pedido de intervenção do exército muçulmano por parte de Áquila. Foi pela acção de Tarique ben Ziyad que Rodrigo foi derrotado, o que constituiu a oportunidade para a infiltração dos muçulmanos no reino visigótico. Conquistaram Toledo, apoderaram-se do tesouro régio e impediram a eleição de Áquila, embora lhe concedessem os domínios do fisco. Depois, foi a vez de Musa ben Nusayr atacar Medina-Sidónia, Sevilha e Mérida numa primeira campanha. Posteriormente, reúne-se a Tarique em Toledo e conquistam Saragoça, Burgos, Leão, Astorga, Lugo e Viseu numa segunda campanha. Abd al-Aziz, filho de Musa, ocupava os territórios da Lusitânia - Évora, Santarém e Coimbra, em 714. Acabavam os reinos germânicos do Oeste peninsular.

.:: Infopédia


Leia também!

► O Legado Romano para o Ocidente

► A conversão religiosa dos germanos

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Carlos Magno

Rei dos francos e imperador do Ocidente, Carlos Magno foi o primogênito de Pepino, o Breve, primeiro monarca da dinastia carolíngia.




Recebeu a unção real na mesma ocasião em que o papa Estevão 2º, mediante a sagração de Pepino, legitimou o poder da nova dinastia e selou uma aliança entre a Igreja de Roma e a monarquia franca.

Também o irmão de Carlos Magno, Carlomano, foi ungido - e, por morte de Pepino, em 768, ambos partilharam a herança paterna.

Até 771, Carlos Magno reinou sobre parte do território franco cujo núcleo era a Austrásia, a mais importante das províncias merovíngias. Ao morrer Carlomano, porém, Carlos Magno usurpou a coroa dos sobrinhos, unificando os domínios, e tornou-se o único rei dos francos.

Como rei, Carlos Magno destacou-se pelo valor guerreiro e pela habilidade política, realizando sucessivas campanhas militares que lhe valeram o renome de maior soberano da Europa medieval.

Em 25 de dezembro de 800, o papa Leão 3º restaurou o império do Ocidente em proveito de Carlos Magno, que, tal como os antigos imperadores romanos, passou a ostentar o título de "Augusto".

Reunificação do Ocidente

Apesar de recolher as tradições de conquistas e façanhas guerreiras dos primeiros merovíngios, a política de Carlos Magno fixou-se em objetivos mais amplos, consoantes com as novas características assumidas pela monarquia franca. Ele ambicionou, desde cedo, a reunificação do Ocidente europeu sob sua autoridade.

Na nova concepção do poder real, encarado por Carlos Magno como verdadeira missão de guia espiritual da cristandade, é perceptível a influência de Alcuíno, seu principal assessor eclesiástico, que, na revisão dos livros litúrgicos realizada a serviço do rei, empregou pela primeira vez a expressão "império cristão".

Desse modo, a grande obra de expansão do reino franco, realizada mediante as contínuas investidas contra o reino lombardo, os saxões, os frísios e os avaros, aparece, no conjunto de sua política, sobretudo como instrumento da unificação da fé.

Em conseqüência de suas vitórias, que garantiram a anexação de regiões como a Saxônia, a Frísia e a Baviera, além de um domínio temporário em territórios eslavos e árabes (que dominavam a Espanha), tornou-se o primeiro monarca a reinar sobre a vasta área que abrangia quase toda a Europa ocidental e central.

Paralelamente à efetivação das conquistas, o apoio dispensado à realização da reforma eclesiástica em seus Estados reforçava o prestígio de soberano cristão e conferia à sua autoridade uma base cada vez mais teocrática.

Carlos Magno legislou sobre matérias disciplinares da Igreja e, inclusive, sobre questões de dogma, participando do combate às heresias da época. Assim, a coroação de 800 foi muito mais que o resultado da extensão de seus domínios. Sugerida talvez pelo próprio monarca, ela foi principalmente conseqüência da situação especial da Santa Sé, ameaçada na Itália tanto pelos lombardos como pelo Império Bizantino - e que buscou, em Carlos Magno, um protetor.

Renascimento carolíngio

Os últimos anos de vida de Carlos Magno, após a coroação imperial, foram dedicados à consolidação do Estado. A instituição dos missi dominici (enviados do Senhor), importante para assegurar o cumprimento das determinações reais em todos os condados do império, reorganizou-se em 802.

Não obstante a duração efêmera do império carolíngio, partilhado em 843 por seus netos, o reinado de Carlos Magno é considerado decisivo na formação histórica da Europa Medieval. A política de aliança com Roma e a estreita colaboração com os dignitários eclesiásticos em seus territórios não apenas deram origem ao futuro conflito entre o papado e o império, como firmaram a base da cultura estritamente religiosa da Idade Média ocidental.

A preocupação de Carlos Magno com a organização eclesiástica e com o soerguimento intelectual do clero levou-o a patrocinar o movimento de pesquisas filológicas nos mosteiros e abadias do império, que se tornaram grandes centros de cultura.

Para tanto, o imperador se cercou de eruditos religiosos estrangeiros, que difundiram um ensino voltado às tradições da latinidade cristã. A produção literária e, principalmente, a instrução dispensada nos colégios das abadias e na escola palaciana de Aix-la-Chapelle representaram o maior impulso que recebeu a chamada Renascença carolíngia.

Embora de alcance limitado na época, a contribuição desses letrados seria inestimável nos séculos subseqüentes. Para citar apenas um exemplo, é à paciente e minuciosa atividade dos copistas dos mosteiros carolíngios que se deve a preservação de grande parte da literatura latina. A própria crítica contemporânea dos textos clássicos baseia-se amplamente em seus manuscritos.

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Sargão I, o Grande
Sargão, o Grande como é chamado por modernos
historiadores, foi um brilhante líder militar, bem
como um administrador energético e inovador. Foi o
primeiro rei a unir a Mesopotâmia sob o comando de
uma só pessoa, sendo que o império por ele montado
passou a ser o padrão para outros governantes.

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Olmecas
Os olmecas estabeleceram uma das mais antigas
civilizações das Américas. Graças ao aprimoramento
das técnicas agrícolas, eles puderam vencer as
hostilidades do meio e sustentar grandes populações.
Eles difundiram seus conhecimentos do litoral do Golfo
até o litoral do Pacífico, El Salvador e Costa Rica.

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Antigüidade greco-romana
deixou marcas na Líbia

As cidades litorâneas do país norte-africano guardam
ruínas milenares e impressionantes. O litoral da Líbia é
um dos maiores tesouros arqueológicos do mundo. Suas
cidades costeiras ainda guardam as ruínas de impérios
erguidos por fenícios, gregos e romanos milênios atrás.

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Haroldo II x Harald Hardrada
Em setembro de 1066, Hardrada partiu com 300
embarcações e 7,5 mil homens para tomar o trono
inglês. Ele contava ainda com a ajuda de Tostig,
o irmão de Haroldo II. A disputa pelo trono
encerrou a dinastia anglo-saxônica na ilha, pôs
fim à era viking e levou os normandos ao poder.

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“O que você faz em vida ecoa na eternidade”


terça-feira, 25 de maio de 2010

A conversão religiosa dos germanos



Ao longo de sua trajetória, a Igreja Cristã teve grande papel na divulgação e expansão do cristianismo pelos vastos territórios dominados pela população romana. Inicialmente, como bem sabemos, os cristãos realizavam a pregação do Cristianismo, mesmo com as perseguições empreendidas pelos romanos que se opunham ferrenhamente ao conteúdo das crenças disseminadas. Com o crescimento da religião, o Império Romano acabou revertendo tal situação ao oficializar o Cristianismo e, desse modo, observamos a configuração de uma hierarquia que mais tarde consolidaria a presença da Igreja como instituição atuante.

Entre os séculos III e IV, a Igreja Cristã realizava a disseminação do Cristianismo com o apoio do Império Romano, que oferecia enormes facilidades para que populações inteiras paulatinamente se voltassem para a nova religião. Contudo, essa situação veio a se transformar com o advento das invasões bárbaras, as quais trouxeram uma variedade de povos, culturas e crenças para os antigos domínios imperiais. A partir de então, diferentes estratégias deveriam ser elaboradas para que os clérigos cristãos conseguissem penetrar no interior dos recém-formados reinos bárbaros e, de tal forma, garantir a sobrevivência da religião.

Inicialmente, vemos que a ação da Igreja se concentrou na formação de mosteiros em regiões rurais, na promoção de estratégias que aproximassem os clérigos dos monarcas e na melhoria da formação dos membros cristãos que promoveriam o diálogo junto às populações pagãs. No entanto, devemos salientar que esse processo de diálogo para com os povos germanos, aconteceu muito mais em função de práticas que não só apresentavam uma nova religião, mas também colocavam em voga vários hábitos, instituições e modelos provenientes da própria cultura clássica que se mostrava viva, apesar da crise romana.

De forma alguma, não podemos apontar que tal experiência fosse determinante para que a cultura dos povos germanos desaparecesse ou que a Igreja tivesse seus esforços radicalmente voltados para tal objetivo. Ao mesmo tempo em que as conversões aconteciam, o processo de unificação de tribos em reinos unificados, as novas rivalidades experimentadas e a modificação das estruturas sociais germanas também atuavam na formação de um novo mosaico cultural. Com isso, percebemos que a cristianização dos germanos esteve longe de configurar um tipo de transformação histórica imposta de cima para baixo.

Ao longo do tempo, podemos ver que as formas de representação da crença cristã, a organização dos calendários, o reconhecimento da santidade de alguns indivíduos e a formação dos movimentos heréticos nos indicavam um movimento de penetração da cultura germana em direção ao Cristianismo. Por outro lado, a consolidação da hierarquia, a manutenção de importantes traços da cultura greco-romana e o poder de mobilização da Igreja indicavam o sentido contrário dessa relação. Com isso, percebemos que as negociações e trocas culturais são bem mais eficazes para enxergarmos o mundo formado por bárbaros e cristãos ao longo da Idade Média.

.:: Brasil Escola

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Penda, um dos últimos grandes reis da Europa

No dia 15 de Novembro de 655 morreu Penda, rei de Mercia, um dos últimos líderes pagãos europeus a enfrentar a onda totalitária da Cristandade que viria a cobrir todo o continente




Num mundo em que quase todos os reis e príncipes tinham já cedido à invasão cristã, Penda brilhou pela sua pétrea lealdade aos Deuses ancestrais, combatendo múltiplos oponentes para salvaguardar a sua independência. A fortaleza de espírito e de braço permitiu-lhe manter-se altivo e indómito até ao momento da sua morte, quando aos oitenta anos caiu em combate.


Mercia e os outros reinos da Grã-Bretanha no século VII.

Mercia era um dos reinos anglos da região que mais tarde se unificou com o nome de Terra dos Anglos, isto é, Inglaterra.

A única fonte histórica existente para conhecer a vida do monarca é a «História Eclesiástica da Nação Inglesa», escrita por Beda, monge que o pintou com as piores cores da crueldade e do barbarismo, como seria de esperar da parte de um cristão que apresenta a sua versão da vida de um pagão... Este texto foi depois integrado na Crónica Anglo-Saxã, a qual apresenta a genealogia do rei de Mercia da seguinte maneira: Penda filho de Pybba, filho de Creoda, filho de Cynewald, filho de Cnebba, filho de Icel, filho de Eomer, filho de Angeltheow, filho de Offa, filho de Wermund, filho de Wihtlaeg, filho de Woden, sendo Woden o Deus Máximo dos Germanos, Senhor da Sabedoria e da Morte em Combate (Wotan na Alemanha, Odin na Escandinávia).
Significa isto que os Anglos atribuíam uma ascendência divina aos seus reis, tal como os Godos (segundo Tácito em «A Germânia»). Neste caso, esta genealogia vai tão atrás no tempo que faz referência à época que antecede a migração anglo-saxónica do norte da Germânia para a Grã-Bretanha: o supracitado Offa filho de Wermund, foi de acordo com lenda antiga um grande herói dos Angeln, liderando-os com êxito na resistência contra os antigos Saxões, junto ao rio Eider, a norte da moderna cidade de Hamburgo. Note-se entretanto que uma descendente de Penda, Lady Ealhswyth, esposa do rei Alfredo (unificador dos Anglo-Saxões, fundador da Inglaterra), é considerada antepassada da actual família real inglesa.

Eis uma breve cronologia da sua época, mencionando alguns dos eventos mais importantes e os comentários que se justifiquem:

597 - chegada da missão augustiniana (cristã de Agostinho) ao reino de Kent (sudeste da Britânia, ver mapa acima). Penda teria nesta altura pouco mais de vinte anos; quando aos cinqüenta se tornou rei, poucos seriam os reis anglos/saxões convertidos ao Cristianismo; quando Penda morreu, pelo contrário, só o reino de Sussex e a Ilha de Wright se mantinham pagãos.

627 - Edwin de Nortúmbria recebe o batismo.

631 - O rei Sigibert de Ânglia Oriental (East Anglia) torna-se cristão.

633 - Edwin de Nortumbria é morto em combate por Penda na batalha de Hatfield Moor; nesta batalha, Penda contara com a aliança do rei cristão Cadwallon de Gynnedd (reino celta do norte de Gales); os sucessores de Edwin foram Osric em Deira (sul de Nortumbria) e Eanfrith em Bernicia (norte de Nortúmbria), que receberam o baptismo mas que renunciaram ao Cristianismo assim que se tornaram reis.

634 - Oswald torna-se rei de Nortúmbria e repõe o domínio cristão.

635 - Penda derrota e mata Sigibert (que abdicara do trono para se tornar monge) e o rei Egric de Ânglia Oriental.

639 - O bispo Birinus baptiza o rei Cynegils do reino de Wessex.

642 - As forças de Nortúmbria lideradas por Oswald entram em confronto com as de Mercia, conduzidas por Penda. O combate dá-se em terras de Mercia, o que leva a pensar que resultou de uma ofensiva de Oswald. Oswald é derrotado e morto, a sua cabeça e braços são cortados e expostos; Bede considera que Penda vence as suas batalhas por meio de artes diabólicas enquanto a Igreja manda canonizar Oswald, visto que «Santo» Oswald esticou o pernil em batalha mas o seu braço direito permaneceu salvo da degradação dos corpos, o que para os cristãos foi um milagre.

643 - O filho de Cynegils, Cenwealh, chega ao trono e imediatamente repudia o Cristianismo. Cenwealh casara-se com a irmã de Penda.

645 - Cenwealh divorcia-se da irmã de Penda; estala a guerra entre Wessex e Mercia, em que Penda vence Cenwealh, que por sua vez se exila; dois anos depois, Cenwealh retorna ao Cristianismo.

653 - O rei Sigibert de Essex impõe o Cristianismo no seu reino.

654 - Penda derrota e mata o rei Anna de Ânglia Oriental.

655 - A Nortúmbria liderada pelo rei Oswy (que matara o seu irmão Oswine, mas nunca foi demonizado pela Igreja) vence Mercia e Penda morre em combate.

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Invasão da Bretanha: os lobos que vieram do mar

Os anglo-saxões enfrentaram uma resistência de séculos na Bretanha, mas apagaram quase todos os traços do domínio romano na ilha


Invasões anglo-saxônicas nos séculos V e VI.

O dia amanheceu com uma tranqüilidade enganosa na decadente cidade romana do nordeste da Bretanha (atual Inglaterra). Os negócios estavam fracos no mercado e ninguém mais se arriscava a usar a velha casa de banhos, tão popular entre os endinheirados do passado. Mas pelo menos, pensavam os bretões, dava para contar com a guarnição de mercenários saxões para proteger o local de outros bárbaros. Por isso ninguém viu os guerreiros recebendo com toda calma os barcos a remo na praia nem percebeu que eles se juntaram aos recém-chegados, em lugar de detê-los. Num piscar de olhos, o fórum da cidade tinha sido tomado e seus magistrados eram reféns ou cadáveres. Os mercenários bárbaros haviam tomado o comando. Com uma ou outra variante, essa cena deve ter se repetido por toda a costa bretã durante o século 5. Ao contrário do que muita gente imagina, os saxões e seus parentes invasores, os anglos e jutos, eram velhos conhecidos da população da Bretanha. Tiveram sucesso, em grande parte, porque muitos deles foram admitidos na ilha como mercenários e só então se rebelaram. Lentamente deixaram de atuar como simples piratas e foram conquistando terras e se fixando. Não que os bretões não tenham resistido depois do choque inicial. Em muitos casos, eles conseguiram deter a maré germânica, talvez conduzidos pelo lendário líder que hoje conhecemos como Arthur. Mas, após dois séculos, os invasores se tornaram a principal força da região.

O ataque de piratas germânicos já era um problemão para os moradores da Bretanha desde o final do século 3, quando o poder de Roma ainda controlava a ilha com mão de ferro. Por volta do ano 300, o império precisou construir uma série de defesas costeiras, os chamados “Fortes do Litoral Saxão” – deixando claro quem era a principal ameaça. Por algum tempo a situação melhorou, mas em 367 aconteceu o que os romanos temiam: um ataque conjunto, em todas as frentes – saxões que atravessavam o mar no leste, pictos da Escócia no norte, escotos da Irlanda no oeste, tudo isso misturado a uma rebelião das tropas que deveriam proteger os bretões. O general espanhol Teodósio, pai do imperador homônimo, conseguiu deter os avanços bárbaros por algum tempo e reorganizar as defesas da ilha, mas os soldados que ele trouxe eram, provavelmente, de origem germânica, entre eles vários saxões, pelo que indica o estilo da fivela de cintos militares daquela época.

“Usar mercenários bárbaros para lutar contra outros bárbaros era uma prática comum em todo o mundo ocidental”, diz Johnni Langer, especialista em história medieval da Universidade do Contestado, PR. A situação política destrambelhada do império logo deixaria a ilha ainda mais vulnerável. É que generais que comandavam tropas na Bretanha, a começar pelo poderoso Magnus Maximus, em 383, passaram a ambicionar o cargo de imperador. A cada tentativa (fracassada) de tomar o poder, arrastavam para o continente quase todo o exército e deixavam a ilha desguarnecida. Quando o último desses usurpadores, Constantino III, deu com os burros n’água, os bretões se cansaram e se declararam independentes. O imperador legítimo, Honório, reconheceu o fato em 410, autorizando os nativos da Bretanha a organizar sua própria defesa.

Mas os bretões não sabiam pensar em nada melhor do que continuar a política romana de contratação de mercenários. Havia gente de sobra disposta a encarar esse serviço entre os anglos e saxões (do norte da Alemanha), jutos (sul da Dinamarca) e frísios (da Holanda). “Os dialetos que se formaram na Inglaterra depois da imigração sugerem que todos esses subgrupos falavam uma língua comum, com variações regionais”, conta Michael Drout, especialista em língua e literatura anglo-saxã do Wheaton College, nos EUA. Todos também enfrentavam um problema comum: a superpopulação e a falta de áreas para cultivo em suas regiões natais, pantanosas e perto do mar.

De piratas a conquistadores

A Bretanha era a terra das oportunidades e há sinais de que, no começo do século 5, havia anglo-saxões se estabelecendo como posseiros, outros servindo na defesa das cidades e muitos atuando como piratas. Os registros da época são confusos, mas parece que um chefe bretão de nome Vortigern, que havia se tornado governante supremo de boa parte da ilha, tentou transformar mercenários saxões em seu exército pessoal, concedendo-lhes algumas terras. Mas não cumpriu o prometido. “Foi um dos erros de cálculo mais espetaculares da história britânica”, diz o historiador Simon Schama, autor de A History of Britain. Os chefes dos guerreiros contratados por Vortigern, os irmãos Hengest e Horsa, teriam se rebelado. Conclusão: os protetores (ou piratas) teriam se tornado conquistadores. “As evidências arqueológicas mostram que a migração durou um século ou mais. Pode sim ter existido líderes com os nomes Hengest e Horsa, mas as menções a eles em poemas épicos dos anglo-saxões sugerem que o mais provável é que fossem personagens lendários”, diz Drout, lembrando que os dois nomes querem dizer “cavalo”, venerado pelos saxões.

O fato é que o cavalo dos invasores eram seus barcos a remo. “Na verdade não passavam de canoas que provavelmente não tinham vela”, conta Langer. Mesmo assim eram boas o suficiente para fazer a travessia do mar do Norte e subir os rios até as cidades e os povoados rurais. O armamento também era simples, mas eficiente: lanças, machados, uma espada curta chamada seax (origem do nome tribal dos saxões) e escudos de madeira.

Tudo indica que os nativos da ilha se recuperaram do susto inicial porque, depois de um avanço saxão que atingiu cerca de metade do território da atual Inglaterra, houve um respiro. Nas primeiras décadas do século 6, alguém chamado Arthur (provavelmente um general, e não um rei) parece ter liderado a cavalaria bretã contra os soldados de infantaria saxões e levado a melhor. Mas a divisão da Bretanha em pequenos reinos, sem uma liderança forte, impediu que a reação fosse pra valer. Um novo grupo de invasores, que iriam formar o reino saxão de Wessex, voltou a empurrar os bretões para o oeste. É bom frisar que o processo foi lento. No início os anglo-saxões eram só uma nova elite, governando uma população nativa maior, que não foi exterminada. “A substituição completa nunca aconteceu. O que houve foi a prevalência cultural das populações germânicas”, explica Langer. Na Inglaterra e em parte da Escócia, a partir do ano 600, os recém-chegados reinavam absolutos.

O túmulo-barco

Não há prova maior da abrangência das conexões comerciais e da riqueza dos anglo-saxões pouco depois da invasão do que o túmulo real de Sutton Hoo. Encontrado no vilarejo de mesmo nome no sudeste da Inglaterra, o sítio arqueológico provavelmente abrigava o corpo do rei Raedwald, de East Anglia, morto por volta do ano 620. Raedwald foi um dos primeiros soberanos anglo-saxões a se converter ao cristianismo e sua última morada mostra uma mistura curiosa de influências pagãs e cristãs. Para começar, seu “caixão” é um barco de quase 30 metros de comprimento, completamente equipado com jóias belíssimas e armas de luxo. Os poemas épicos anglo-saxões sugerem que os reis eram enterrados dessa maneira para irem de barco ao além. O elmo decorado com bronze e o enorme escudo lembram o estilo romano do fim do império, enquanto o tipo do enterro e outros objetos sugerem conexões com a Suécia. Por outro lado, caldeirões de bronze foram quase certamente fabricados por bretões. E, o mais intrigante de tudo, há um par de colheres de prata que levam as inscrições gregas “Saulo” e “Paulo” – os dois nomes do apóstolo São Paulo. Sua origem é provavelmente bizantina e indica a conversão de Raedwald, já que Saulo era o nome usado pelo apóstolo antes de se tornar cristão.

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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Batalha de Estrasburgo

A Batalha de Estrasburgo (também chamada de Batalha de Argentoratum) foi uma batalha ocorrida em 357 dC, entre o exército romano comandado por Flávio Cláudio Juliano(Juliano, o Apóstata) e o exército Alamano, sob a liderança do rei Chonodomario.




Antecedentes

Na primavera do ano 357 dC, os alamanos renovaram seus ataques, entrando na Gália mais do que o habitual. Enquanto soube dessa incursão de larga escala, Constâncio II viu isso como uma oportunidade para destruir os alamanos de uma vez por todas. Enviou da Itália 25.000 homens comandados por Barbacio. Juliano desenvolveu um plano para prender os alamanos em um movimento de pinça entre o seu exército e as tropas Barbacio, para confina-los a um espaço muito pequeno e aniquila-los.

No entanto, quando Juliano fortificava Saverne enviou tropas auxiliares para as ilhas do Reno, sobe posse dos alamanos, as tropas lhe deram a notícia de que sos Alamanos tinham derrotado as forças de Barbacio, forçando-o a retirar-se para seus quartos de inverno. Isto reduziu as forças Juliano para 13.000 homens, que tiveram que enfrentar um exército de bárbaros de 35.000. Quando Chonodomario marchou para Estrasburgo, Juliano, viu uma boa oportunidade de entrar em batalha contra todo o exército Alamano, tomou o caminho para enfrentá-lo.

A batalha


Posicionamento dos exércitos no campo de batalha.

Ambos os lados reuniram-se na margem ocidental do rio Reno. Os alamanos se posicionaram em forma de fatias e, vendo o exército romano parado, enquanto Severo, o chefe da cavalaria romana na ala esquerda, se atrapalhava com a ala direita alamana. Então, Juliano ordenou um avanço geral em toda a linha, e lutou contra os alamanos. As legiões de esquerda logo fizeram os alamanos retrocederem, mas a direita da cavalaria romana foi dissolvida quando um de seus oficiais superiores foram feridos. Teriam ultrapassado até mesmo suas próprias linhas se o legiões não se mantivessem firmes, recusando-se a deixá-los passar até Juliano convence-los a voltar à ação.

A batalha foi resolvida em uma luta de infantaria frontal. Dado o peso da artilharia (dardos, lanças e flechas), a formação dos bárbaros começaram a se desfazer.. As coortes de auxiliares germanos Bracchiati e Cornutia lançaram um grito de guerra germano, de modo que seus adversários sabiam que eles estavam enfrentando. Os romanos formaram uma parede de escudos, e seguindo uma luta de empurrões que os Alamanos tentaram superar com os ombros e joelhos, e com golpes frenética com a espada. Chonodomario liderou uma força de chefes tribais, que penetrou na frente romana, mas foram derrotados pelos Primani Legion (força de profissionais da reserva).

Esse foi o último esforço dos alamanos. Incapazes de penetrar na muralha de escudos romanos, e com o grande número de perdas, começaram a fugir. Embriagados com o sangue, os romanos romperam a formação e os perseguindo-os até o Reno, onde Juliano ordenou que lançassem uma carga de artilharia massacrando os alamanos enquanto tentavam atravessar o rio a nado.

Resultado

Os alamanos perderam 6.000 homens, a maioria dos quais, provavelmente, morreram durante a perseguição ou afogados no Reno. Chonodomario foi capturado e enviado a Roma onde morreu mais tarde. As baixas Romanas somaram 243 homens, incluindo dois tribunos.

Juliano foi aclamado como Augusto pelas suas tropas no campo de batalha. Ele recusou o título e ordenou a unidade de cavalaria que quase lhe custou a batalha que desfilasse no dia seguinte com roupas femininas.

Fonte: Wikipédia
Tradução e Edição: Valter Pitta

Eudusios

Os eudusios ou sedusios (em latim, Eudusii, Sedusii foi um povo germânico mencionado por César em seus Comentários sobre as Guerra das Gálias.

César diz que derrotou tropas dos eudusios comandados por Ariovisto:

Só então, e à força, retirou os soldados germanos do acampamento formados por harudes, Marcomanni, tríbocos, Vangiones, német, eudusios e os Suevos.

Tácito ( 55 – 120 D.C.) menciona em Germania, 40 os Eudoses (Eudoses), chamados por César de Eudosio:

O reudignos, planos, ângulos, Anglii, Eudoses, Suardones e nuitones estão cercados e protegidos por rios e florestas.

Os Eudoses, viveram no norte da Jutlândia, pode ter invadido a província romana da Britannia junto com os Jutos, Anglos e Saxões no século V. Ptolomeu (100 – 170 D.C), em sua Geografia menciona os Fundusii (fundusios) como uma das tribos que habitavam o que chamou de "Península Címbrica" e que corresponde à Jutlândia). Ptolomeu diz:

Sigulones, Sabalingii deinde, Cobandi deinde, quos supra Chali, et ad hos occasum Rursus Fundusii acima Charudes anúncio ortum, omnium maxime vero ad Septentrion Cimbri;.

Parece que neste momento Ptolomeu fez uma interpretação errada de uma fonte Latino sobres os Eudusii, de modo que "fundusios" seria eudusios.

Fonte: Wikipédia
Tradução e Edição: Valter Pitta

domingo, 11 de abril de 2010

Carlos Martel: O Herói Cristão que salvou a Europa

Em 732 a situação da Europa inspirava as piores apreensões.
À anarquia feudal somavam-se as invasões





Pelo Norte, em geral por via marítima e fluvial, os vikings desciam saqueando, incendiando e massacrando cidades e campos. Da Europa Oriental vinham povos bárbaros ávidos de sangue e destruição.

A estes temíveis perigos veio se somar um novo inimigo que entrava pelo sul.

Os muçulmanos tinham invadido a Espanha com velocidade fulgurante. Ébrios pelas vitórias atravessaram os Pirineus. Fazendo imenso botim e escravizando as populações chegaram até o coração da França.

A França, a “filha primogênita da Igreja”, por sua vez, era o coração da Cristandade em formação.

Os reis francos, da dinastia merovíngia, encontravam-se em grande decadência e não deram sinais de reação.

Foi então que se acendeu uma nova estrela no firmamento da Cristandade.

Seu nome foi Carlos Martel (688-741), filho do noble Pepino de Herstal, nascido na Valônia, hoje Bélgica.

Carlos Martel desempenhava a função de “prefeito de palácio” do reino franco do Oriente desde 717, e a partir de 731, da totalidade dos três reinos em que se dividiam os francos. De fato, desde essa posição governava o país.




Seu nome encheu-se de glória pela vitória na Batalha de Poitiers (por alguns chamada de Tours) a meio caminho das duas cidades.

Nela, o herói Carlos Martel quebrou o ímpeto muçulmano e por isso é justamente considerado o salvador da Europa face ao expansionismo islâmico.




Da decisiva batalha de Poitiers (732) resta uma crônica árabe, de autor anônimo. Por certo, para o autor tratou-se de um desastre irrecuperável, lembrado com pesar.

O cronista islâmico narra assim o entrechoque bélico:

“Os muçulmanos golpearam os seus inimigos e atravessaram o rio Garonne, assolando o país e levando inúmeros cativos. Aquele exército passou por todos os lugares como uma tempestade devastadora. A prosperidade tornou esses guerreiros insaciáveis.

“Ao cruzarem o rio, Abderrahman arruinou o condado. O conde refugiou-se em sua fortaleza, mas os muçulmanos avançaram contra ele e, entrando à força no castelo, mataram o conde. Para tudo cediam suas cimitarras, que eram ladrões de vidas.

“Todas as regiões do reino dos francos temiam aquele exército terrível, assim, os francos recorreram a seu rei Carlos Martel e lhes contaram sobre a destruição feita pelos cavaleiros muçulmanos, e como subjugaram, ao atravessarem, toda a terra de Narbonne, Toulouse e Bordeaux. Eles também relataram a morte do conde. Então o rei alegrou-os, declarando que iria ajudá-los...

“O rei montou em seu cavalo, e levou um exército que não pode ser contado, e dirigiu-se contra os muçulmanos. Ele os encontrou na grande cidade de Tours.

“Abderrahman e outros cavaleiros prudentes viram a desordem das tropas muçulmanas, que estavam pesadas devido aos espólios de guerra; mas eles não se aventuraram a desagradar os soldados ordenando que eles abandonassem tudo, com exceção de suas armas e cavalos de guerra. Abderrahman confiou no valor dos seus soldados e na boa sorte que estava lhe acompanhando. Mas a falta de disciplina é sempre fatal aos exércitos.

“Assim, Abderrahman e suas hostes atacaram Tours para ainda adquirir mais espólio. Eles lutaram contra esta cidade tão ferozmente que a fúria e a crueldade dos muçulmanos para com os seus habitantes da cidade eram como a fúria e crueldade de tigres raivosos. Eles assaltaram a cidade quase diante dos olhos do exército que veio salvá-la. Era manifesto que Deus iria castigar tais excessos; e a sorte logo virou-se contra os muçulmanos.

“Próximo ao rio Loire, os dois grandes exércitos, de duas línguas e de dois credos, estavam em ordem, um frente ao outro.

“Os corações de Abderrahman, de seus capitães e de seus homens estavam cheios de ira e orgulho, e eles foram os que primeiro começaram a lutar. Os cavaleiros muçulmanos dirigiram-se com ferocidade contra os batalhões dos francos, que resistiram virilmente. Muitos caíram mortos de ambos os lados, até o pôr do sol.

“A noite separou os dois exércitos: mas ao amanhecer os muçulmanos voltaram à batalha. Os cavaleiros logo chegaram, sem muito esforço, no centro do batalhão cristão. Mas muitos dos muçulmanos estavam temerosos pela segurança do espólio que tinham armazenado em suas barracas.

“Um falso grito surgiu nas suas fileiras, alertando que alguns dentre os inimigos estavam saqueando o acampamento; o que levou vários esquadrões da cavalaria muçulmana a voltarem atrás para proteger suas barracas.

“Porém, parecia que eles estavam fugindo dos cristãos e todo o exército muçulmano ficou preocupado.

“E enquanto Abderrahman se esforçava para controlar o tumulto e conduzir os seus homens novamente para a luta, guerreiros francos o cercaram e ele foi perfurado por muitas lanças, de forma que morreu. Então todo o exército muçulmano evadiu-se ante o inimigo e muitos morreram na fuga...”

“A batalha de Tours, ou Poitiers, como deveria ser chamada, é considerada como uma das batalhas decisivas da história mundial. Ela decidiu que os cristãos, e não os muçulmanos, seriam o poder dominante na Europa. Carlos Martel é celebrado especialmente como o herói dessa batalha”, escreveu John H. Haaren, no livro “Famous Men of the Middle Ages”.

Ainda posteriormente seu neto, Carlos Magno faria uma incursão militar na Espanha e trucidaria as últimas posses islâmicas na França. O território francês foi fonte continuada de cruzados e monges que cooperaram com os reis da Espanha e Portugal para banir o Crescente da península ibérica.




Carlos Martel recebeu do Papa Gregório III o título de Herói da Cristandade. Ele foi sepultado na abadia de Saint Denis de Paris, necrópolis dos reis da França.

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